Jorge Coutinho
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Na sequência de entrevistas anteriores, o nosso site continua a salientar nomes destacáveis na vida do Sporting Clube da Covilhã, entrevistando desta vez Jorge Coutinho, que representou o emblema serrano entre 1986 e 1988, assinando boas exibições a extremo, que muito ajudaram o clube a conquistar o título de Campeão Nacional da 2ª Divisão e a assegurar a última presença na 1ª Divisão.

Jorge Coutinho reside atualmente em Alpiarça

1 – Como surgiu o convite para ingressar no SC Covilhã?

O convite para ingressar no Covilhã foi, digamos, um ataque súbito a alguns jogadores do Beira-Mar. Nós eramos cinco (eu, o João Gouveia, o Cavaleiro, o Craveiro e o Balseiro) e lembro-me que foi numa noite que discutimos os contratos na praia, na Barra. Os diretores do Covilhã traziam já a máquina de escrever para redigir os contratos e tudo era uma questão de tempo, digamos que tudo tinha que ficar resolvido ali na hora. Lembro-me, que o então presidente do Beira-Mar tinha-me tratado um bocado mal, ou seja, não me tinha abordado da forma que eu achava correta, porque quando me chamou ao gabinete dele chamou-me pelo nome completo, parecia que nem me conhecia, e depois, em termos monetários, lembro-me que não satisfazia o que eu queria na altura, já que eu tinha sido contratado para subir de divisão. Então quanto ao contrato para o Sporting da Covilhã tudo foi feito em contra-relógio, tudo se decidiu numa noite, assinamos todos na mesma noite.

2 – Quais os fatores que provocaram o êxito da equipa de 1986/87, que conseguiu a subida à Primeira Divisão com considerável vantagem na Zona Centro, em que pontificavam adversários de grande valia, como o Feirense e o Beira-Mar?

O êxito dessa temporada magnífica deveu-se ao valor individual de cada jogador, mas sobretudo á união e amizade que havia no grupo. Em todos os grupos há sempre jogadores que se evidenciam, porque existem sempre jogadores que querem fazer novos e bons contratos e tentam jogar um pouco no individual, mas naquele ano, e porque os resultados apareciam e, porque não dizê-lo, o “mister” não gostava muito do valor individual, fazia prevalecer o coletivo e isso fez com que ao fim da 1ª volta nós estivesse-mos na frente e sem derrotas. Digo sem derrotas, porque essa foi a partir de certa altura uma meta a atingir, visto que ninguém nos ganhava e não sabíamos quem era a primeira equipa a nos ganhar, portanto, fizemos dessa realidade uma bandeira. Facto que só aconteceu em Almeirim, onde o Santos sofreu mais golos nesse jogo do que tinha sofrido até ali, visto que sofremos quatro golos em Almeirim e o Santos só tinha sofrido três até então. Quanto aos mais diretos adversários, o Beira-Mar era de facto a equipa mais perigosa, porque possuía bons jogadores e eram também uma equipa experiente, enquanto o Feirense, lembro-me de na altura o treinador ser um professor que dizia que nós eramos beneficiados pelos árbitros e eu disse numa entrevista que ele tinha era que se preocupar com a equipa dele e deixar-se dessas coisas.

3 – O SC Covilhã sagrou-se Campeão Nacional da 2ª Divisão numa fase final com Vitória de Setúbal e Sporting de Espinho. Que recordação tem desse triunfo?

Foi uma liguilha espetacular, em que o Vitória de Setúbal comandado pelo Allison, antigo treinador campeão pelo Sporting CP, era a equipa apontada logo á partida como vencedora, todos os outros eram ou iriam ser meros participantes. Lembro-me que antes da lIguilha começar, nunca nenhum meio de comunicação (jornal, rádio, televisão) veio falar connosco sem ser os regionais, esses que sempre fizeram um trabalho formidável. O primeiro jogo foi em casa dos favoritos, dos imbatíveis, das” trutas”, como dizemos na gíria futebolística, em que passámos poucas vezes do meio campo, é verdade que defendemos muito mais do que atacámos, mas fomos lá uma vez, marcámos e depois “fechámos a loja”, não os deixámos lá entrar e era nestes momentos que vinha ao de cima a união, a amizade e alguma humildade da equipa. Quando tocava a unir o grupo funcionava, cerrávamos os dentes e sabíamos sofrer, estar a ganhar em casa do candidato principal, dos pintados , sim dos pintados porque jogavam com pinturas por debaixo dos olhos, coisas do Roger Spry, treinador adjunto e técnico de karaté, que fez alguma escola por essa Europa fora. O segundo jogo foi em Espinho, num campo pequenino, muito ventoso e eles muito bem comandados pelo Quinito, muito raçudos, afinal tinham ganho a zona norte, muito combativos e perdemos. Depois veio um jogo espectacular, em que recebemos em casa o Vitória de Setúbal, “os tais”, e empatàmos 3-3 num jogo de grande categoria, talvez dos jogos mais interessantes em que participei. Lembro-me, que eles tinham um guarda-redes muito experiente de nome Meszaros, que jogava muito fora da área, tipo defesa central, pois jogava muito avançado e eu fiz-lhe um chapéu e marquei um belo golo. Quanto ao outro e decisivo jogo, recebemos o Sporting de Espinho e com muita dificuldade ganhámos e sagrámo-nos Campeões Nacionais. Não eramos apontados como favoritos e até diziam que iamos ser os ultimos, mas o que é certo é que com muita determinação e garra e entrega fizemos carregar o escudo no braço esquerdo.

Jorge Coutinho envergou a camisola serrana entre 1986 e 1988

4 – No seu entender, quais foram as principais causas para o SC Covilhã não conseguir a manutenção na Primeira Divisão na época de 1987/88?

Depois, o ano seguinte foi uma época para esquecer, em que entrámos mal no campeonato, a equipa era pouco equilibrada e alguns de nós nunca tínhamos jogado na 1ª divisão, ou como eu, que só tinha jogado um ano, e outros que tinham jogado mais anos, a devoção já não era a mesma. Vir de clubes maiores e vir jogar na serra, na altura era desprestigiante, se calhar foi o pensamento de alguns, por outro lado sou também da opinião do mister, quando disse uma vez na televisão que as «condições para uma 2ª divisão não são as mesmas para uma 1ª». Quis com isso dizer, que o Covilhã tinha condições para a Segunda, mas depois para permanecer na Primeira eram precisas outras condições, nomeadamente, outro campo para treinar, um pavilhão, salas de musculação, enfim, outras estruturas. Mas tudo isto é um pouco filosófico, hoje explicar porque fizemos um campeonato tão mau assim á distância é muito complicado para mim. Foram muitos fatores, todos tivemos culpa, ninguém desce porque quer, a direção, os médicos, o roupeiro e os jogadores fomos todos culpados.

5 - Acompanha atualmente o SC Covilhã?

Acompanho pelos jornais, tento estar informado. É com grande mágoa que vejo a equipa na posição que está, a faltar tão poucos jogos para o fim, mas a esperança é a ultima coisa a morrer e até porque num passado recente o clube assegurou a permanência na última jornada. Força equipa, é preciso lutar até ao fim, ainda é possível, assim todos queiram e não tenho dúvidas que agora com discurso novo tudo ainda pode acontecer.

6 - Qual a atividade do Jorge Coutinho no presente?

Neste momento faço parte de um enorme e cada vez maior número de portugueses, que sem culpa nenhuma, ficaram na situação de desempregado. E digo sem culpa nenhuma, porque a empresa onde trabalhava foi vendida e os quadros foram ocupados por outros da confiança de quem a comprou, dito de outra forma, os comerciais foram substituídos por outros da confiança da empresa agora mãe!

7Com referência aos anos que esteve ligado ao SC Covilhã, o que gostaria de referir que não foi mencionado anteriormente?

Penso que o mais importante foi dito, resta-me dizer que foi com grande orgulho que fiz parte também da história deste grandioso clube, que foi uma honra para mim vestir esta linda camisola, que é sempre um prazer visitar a cidade onde vivi e que é sempre um prazer contatar com os amigos que deixei, e são muitos, graças a Deus. A Covilhã foi e será sempre uma parte muito importante da minha vida, porque não posso esquecer que o meu filho mais velho veio com 11 dias para a cidade. O clube, como tenho dito toda a minha vida, é um clube pacato, mas feito com gente boa, é portanto um bom clube, estou a recordar o meu tempo, porque quanto a hoje não sei, mas espero que seja também. Na minha altura, pessoas como o Dr. Brito Rocha, o Sr. Malaca, que foram presidentes, assim como todos os outros elementos das respetivas direções, eram pessoas de bem, eram homens honestos. Mencionei os nomes destas pessoas porque foram os presidentes que eu apanhei, e não vou falar noutros nomes porque posso ferir suscetibilidades. A todos os covilhanenses e principalmente a todos os simpatizantes do Sporting da Covilhã desejo as maiores felicidades e um até sempre.

 

 Jorge Coutinho em plena ação pelo SC Covilhã

 

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